Entrevistei devotees, que têm fetiche por deficientes. Saiba também sobre quem curte só fingir ter deficiência e pessoas querem se amputar, ou ser paraplégicas.

“Na publicidade, as modelos sem deficiência usam sua sensualidade para vender o produto. Aqui não existe diferença, o único detalhe é que os aparelhos ortopédicos são um acessório de moda, assim como uma bolsa, um cinto”. A naturalidade que a fotógrafa Kica de Castro tem para falar das modelos com deficiência com quem trabalha nos oferece um ponto de vista muito válido para entendermos a cabeça dos devotees, fascinados principalmente por amputados e cadeirantes e que sustentam verdadeiramente um fetiche por deficientes.

Ora vistos como seres assexuados, ora como estranhos, os deficientes estão às margens da sexualidade mainstream. O olhar do devotee amplia as possibilidades sexuais dessa parcela da população. Mas, como é de se esperar, isso não acontece sem os percalços envolvidos em qualquer fetiche.

Fetiche por deficientes e devoteísmo

Antes de tudo, é importante conceituar o devoteísmo: há quem não o considere um fetiche. Isso porque, em termos estritos, o fetiche se volta a objetos ou situações, não às pessoas. No entanto, alguns devotees apreciam sim o contato com objetos, como próteses, muletas e cadeiras de rodas. Além disso, eles vivem em uma busca sistemática por parceiros com deficiência, fator importante na identificação de um fetiche. Entrevistei o devotee brasileiro Smith, que consegue explicar melhor os contornos do devoteísmo:

Fetiche é tomar a parte pelo todo. Mesmo entre psicólogos é um erro comum olhar o detalhe e esquecer o essencial. Apenas para ilustrar, cito um fetiche clássico: a podolatria, ou fetiche por pés. Ora, os pés são de uma pessoa. Outra confusão que se faz é fetiche com fantasia. Pode-se pensar que temos apenas algumas fantasias com a deficiência e já que isso todos têm, ser devotee é algo corriqueiro. Mas não é assim. A fantasia é secundária e inerente a praticamente toda sexualidade. No fetichismo, geralmente, o objeto é o principal e normalmente indispensável, como ocorre com os devotees. Quanto ao devoteísmo ser uma parafilia, se tomarmos o modelo da sexualidade genital como dominante, então considero que sim. Mas podemos fazer isso? Diante de tanta diversidade, podemos considerar dessa forma?”

Adoradores

Foto da agência da Kica de Castro

Aos oito anos de idade, a maioria das pessoas já começa a pensar em situações sexuais, mesmo sem saber direito como o sexo funciona. Pode ser uma fantasia sexual com a capa da Playboy, com um primo mais velho, ou com os dois ao mesmo tempo. Pode ser também com uma vizinha. E se essa vizinha tiver deficiência? Ainda na infância, Smith já ficava fascinado pelos aparelhos e bengalas que uma menina, filha de amigos de seus irmãos, usava. “Os anos se passaram e segui da mesma forma, absorvido pelas mulheres que eu via na mesma condição. Para eu ter uma experiência de satisfação total, tem que ser com uma deficiente. Meu olhar sempre busca uma portadora de pólio, seja mais ou menos afetada. Não importa quantas pessoas estejam no local, se houver uma, eu vou ver. Hoje me aceito melhor, mas não posso dizer que isso não me incomoda. Ainda me incomoda e não sei se isso mudará um dia”.

Frank, um devotee alemão que entrevistei pelo Fetlife, começou aos oito anos de idade a desejar uma vizinha que tinha uma amputação na perna. “Muitos anos se passaram até eu saber que não estava sozinho na minha busca por mulheres amputadas. Elas me excitam muito. Em 1994, vi na TV um documentário sobre pessoas que tinham fetiche por amputados. Para mim, ver um coto de perna ou braço é tão excitante quanto ver um seio. Hoje sou casado com uma mulher sem deficiência. Eu a amo, mas sinto falta do charme que a imperfeição traz. Frequentemente traio minha esposa com mulheres amputadas”.

Relato de um devotee

Nick, devotee da Hungria que conversou comigo pelo Facebook, tem um relato semelhante. “Eu tinha dez anos e, enquanto ia para a escola de ônibus, vi uma menina da minha idade, amputada em uma das pernas, caminhando muito charmosa com apenas uma única muleta. Ela ajudava a impulsionar a muleta com o coto da perna amputada. Aquilo foi uma estimulação sexual extemamente forte para mim. Eu achava que era um louco solitário até 1995, quando comecei a acessar a internet e entrar em grupos de devotees. Encontrei alguns sites que tratam de assunto e percebi que somos milhões no mundo”.

A atração exercida por uma deficiente em um devotee é avassaladora e quase irresistível – Smith

Crescimento das amputações

O interesse por amputações predomina (78,57%), seguido por sequelas de pólio e outros tipos de deficiência (21,43%). Mais de 70% dos devotees gosta da presença de algum tipo de equipamento, como aparelhos, muletas, ou cadeira de rodas. Os números foram obtidos pela pesquisadora e militante pelos direitos dos deficientes Lia Crespo, através de um questionário virtual com devotees.

Diante do estranhamento, o devoteísmo é frequentemente encarado como uma patologia. O psicólgo Oswaldo M. Rodrigues Jr, fundador do Instituto Paulista de Sexualidade esclareceu para mim que um comportamento pode estar nos transtornos parafílicos apenas quando se associa a psicopatologias, ou quando ultrapassa alguns limites. “Resumidamente, quando o desejo parafílico se apresenta com exclusividade, quando existe um desconforto com a situação, quando o consenso é violado, ou se existe risco de lesão, é algo que merece maior cuidado. Outro medidor é a possibilidade de existirem outras atividades sexuais prazerosas além da parafilia, sem que o indivíduo se autopenalize caso não possa executá-la. A preservação da saúde de si próprio e do outro envolvido na atividade sexual é o princípio básico”, conta Oswaldo.

Entre os devotees, predominam os homens: eles são 84% no Brasil. Para Frank, o devotee alemão, relacionar-se com uma deficiente reforça sua masculinidade. “A deficiente exige mais cuidados e apoio. Essa situação dá ao homem a possibilidade de se conectar com sua essência masculina. As mulheres sem nenhuma deficiênia são muito emancipadas e não se deixam cuidar tão facilmente”.

Adorados

“Se você tivesse uma deficiência, iria preferir se relacionar com pessoas fetichistas, ou se arriscar a sofrer o preconceito da sociedade sem fetiche?” Foi essa a pergunta que ouvi de uma amiga quando ela soube do tema desta reportagem. Eu não havia pensado nisso antes, mas acredito que, nessa situação, eu até gostaria de experimentar o relacionamento com devotees, mas não me restringiria a esse tipo de experiência.

Márcia Gori, militante fundadora da ONG Essas Mulheres, é cadeirante e conhece bem como é se relacionar com os fetichistas. Gente sem noção, obviamente, existe em todos os meios: “já tive que lidar com devotees que se sentiam no direito de mandarem fotos dos seus genitais para ver se havia interesse da minha parte”, conta Marcia.

Smith, o devotee brasileiro que entrevistei, nem sempre soube lidar bem com o próprio fetiche. “Tive alguns relacionamentos com deficientes e escondi minha preferência em alguns deles. Infelizmente, muitos ficaram só na minha satisfação imediata. Já mais adulto, comecei sempre a contar. A psicoterapia foi fundamental. Tive um processo longo e sofrido que me fez aprender a ser uma pessoa antes de um devotee”.

Apesar dos conflitos, Márcia acredita que a maior parte dos devotees deixa marcas positivas na vida dos deficientes. “Desde que haja consentimento de ambas as partes, ok. Temos casos de relacionamentos longos, casamentos felizes. Infelizmente boa parte da sociedade infantiliza a pessoa com deficiência. Existem lendas de que somos assexuados, ou que temos uma sexualidade exacerbada. O que ocorre de verdade é a negação dos nossos direitos sexuais e reprodutivos pela sociedade, como se não fôssemos capazes de gerir nossas vidas ou famílias”

“Por que bonita, se coxa, e por que coxa, se bonita?”

A frase é do famoso personagem Brás Cubas, do Machado de Assis, quando fica intrigado com a personagem Eugênia, conhecida por sua beleza, apesar de ser coxa (palavra usada antigamente para pessoas mancas). Kica de Castro, a fotógrafa que abre esta matéria, nunca teve encanações para encontrar a beleza na deficiência.

Ela foi trabalhar como chefe de fotografia em um centro de reabilitação para pessoas com algum tipo de deficiência física em 2002. A demanda era basicamente de fotos para artigos científicos e prontuários médicos, algumas fotos de peças intimas e em casos mais raros, o nu. “Nas minhas fotos, não havia nada de arte, era sempre com a placa, levando o número do prontuário. Essa não era uma situação que a pessoa gostava de ser retratada. Para quebrar um pouco do gelo, comecei a levar alguns acessórios, como bijuterias, maquiagem, espelho, pente, gel e muitas revistas de moda. As fotos continuavam no mesmo padrão, mas a pessoa tinha os cinco minutos de contato com a vaidade e isso foi dando espaço para sorrisos. Aos poucos, os pacientes começaram a voltar para o setor, pedindo para fazer book pessoal”.

O tratamento profissional e ao mesmo tempo sensível, ajudou Kica com sua proposta de bater de frente com o mercado da moda, tão ditador. “Motivados com os resultados, os pacientes perguntavam das possibilidades de ir para o mercado de trabalho como modelos, mas as agências e produtoras diziam não a eles. Em 2007, larguei o meu emprego fixo para abrir minha agência de modelos para profissionais com alguma deficiência. Queremos a capacidade que cada modelo tem, não estamos aqui para assistencialismo. Assim como qualquer pessoa sem deficiência, os profissionais da agência são qualificados”, conta Kica.

Pretending

Foto do pretender russo Drugoy

Não é preciso descer muito fundo nos porões da internet para descobrir que garotas que fingem ter um membro amputado fazem bastante sucesso. Ao digitar “amputee pretender” no Youtube, encontrei dezenas de vídeos com milhares de visualizações e muitos elogios às cenas de mulheres sensualizando diante de uma câmera. Com a ajuda de gazes, meias, ou roupas, elas fingem não ter uma das pernas. Algumas preferem fingir imobilidade e se exibem usando cadeiras de rodas.

Essas pessoas são conhecidas como pretenders e sentem prazer no contato com os aparelhos dos deficientes, ou em provar a imobilidade e limitação física. A maioria faz isso em apenas uma parte do tempo. Alguns pretenders preferem ficar em casa e estar nessa condição diante do parceiro, outros gostam de se exibir em lugares públicos.

Os tipos de pretenders mais comuns são os falsos cadeirantes e falsos amputados. Algumas comunidades, principalmente no Fetlife, se dedicam a outros tipos de pretenders, como aqueles que curtem assessórios como corsets médicos e botas ortopédicas. Outros preferem fingir ter doenças mentais, mas não encontrei nenhuma discussão mais aprofundada sobre isso nos grupos que visitei. Inclusive entre os devotees, a deficiência mental é um tabu ainda maior.

Conhecendo quem gosta de fingir

Navegando, encontrei perfis de pretenders muito interessantes. O fetiche mais único que vi foi o de Donna June. Ela é uma crossdresser de 60 anos que está em processo de transformar sua aparência na de uma mulher idosa, com cerca de 80 a 90 anos. Inspirada no estereótipo das senhoras dos anos 1950, seu visual é composto de vestidos de época, perucas grisalhas, maquiagem, bengalas e, às vezes, uma cadeira de rodas. A meta de Donna June é encontrar uma empregada doméstica ou uma enfermeira para ajudar nessa transformação e que possa cuidar dela como uma mulher idosa — com todas as condições médicas e fragilidades que ela curte fingir possuir.

A pesquisa de Lia Crespo descobriu que 14,29% dos devotees afirmam ter desejos frequentes que os caracterizam pretenders ou até mesmo wannabees, que é um caso ainda mais delicado. São pessoas que querem realmente tornar-se deficientes e que relacionam esse desejo à satisfação sexual. Elas relatam ter fantasias de causar sequelas em si mesmas ou sofrer um acidente para se tornarem amputadas, paraplégicas ou tetraplégicas. Para mim, foi inevitável pensar se existem fatos negativos na vida de uma pessoa que podem levá-la a esse fetiche. Também me perguntei se os wannabes precisam necessariamente de intervenção de um psicólogo ou psiquiatra.

A palavra do psicólogo

O psicólogo Oswaldo ajuda a entender. “Provavelmente neles encontraremos padrões de psicopatologia. Estas pessoas estão em maior número em países em que o envolvimento em guerras, por exemplo, produziu mais pessoas amputadas e que passaram a ser expostas socialmente. Ainda mais quando ex-soldados são considerados heróis e vivem com suas amputações, servindo de modelo para todos ao redor. Para muitos, esta aproximação, real ou fantasiosa serve de modelo, com a crença embutida de que com esta forma se conseguirá o prazer”.

O transtorno comumente associado a essa condição é conhecido como BIID (sigla em inglês para Body Integrity Identity Disorder). O tratamento pode até mesmo envolver uma cirurgia de retirada do membro que atormenta o paciente. Enfim, o assunto é bastante extenso e merece uma reportagem à parte. Quem quiser saber mais sobre wannabes, pode dar uma olhada no caso da norte- americana Chloe Jennings-White.