É estranho que, quando uma nova série surge falando sobre sexo diretamente com adolescentes, todo mundo que já passou dessa fase tenha alguma história pra contar. A minha foi, claro, com Skins.

Skins foi lançada quando eu tinha onze anos e a internet não era lá tão acessível. Tanto pelo conteúdo como pela forma de acessar – eu nunca vou me esquecer daquele barulho infernal da internet discada que sempre me denunciava quando eu tentava acessar escondida. Foi por isso e por outros motivos que descobri a série aos quatorze, exatamente dez anos atrás.

Se eu tivesse assistido Sex Education ao invés de Skins naquela época, eu provavelmente não teria uma ideia tão deturpada e suja do que era o sexo. Ou de como era a adolescência no geral. Ou então, indo mais a fundo, de como era me masturbar e que aquilo que eu sentia era total e completamente normal.

Skins 2° Geração, foto do elenco sobre fundo amarelo
Skins 2° Geração
(Foto: Divulgação)

Ensino médio, drogas e a descoberta sexual

Se você não conhece Skins, o que eu acho difícil, foi uma série britânica lançada em 2007 e finalizada oficialmente em 2013, cuja trama se passa na cidade de Bristol e acompanha um grupo de adolescentes, mudando de elenco a cada duas temporadas, chamadas de “gerações”. Foi uma série mostrando o ensino médio britânico e a vida jovem em meio a drogas, sexo, e ainda alguns crimes intencionais e não intencionais. Quando eu tinha quatorze anos, eu pensava que Skins era só sobre sexo e drogas. E também era. Mas quando cresci e reassisti a série, consegui enxergar pontos que jamais teria enxergado naquela minha idade.

Mas esse título, o do artigo, não veio de mim. Veio do Twitter.

Se você ainda não conhece a série, a primeira temporada de Sex Education saiu ano passado, e a segunda temporada foi lançada esse ano. Como o próprio nome já diz, trata-se de educação sexual, levada de um jeito cômico e leve, tanto para o público adolescente quanto para os adultos.

Maeve, Otis e Eric, os protagonistas de Sex Education em um dos cenários da série.
Maeve, Otis e Eric, os protagonistas de Sex Education
(Foto: Divulgação)

Na trama, Otis Milburn (Asa Butterfield) sofre com problemas para se masturbar ou ter desejos e ereções. Ele tem dezesseis anos e se acha uma aberração por isso, afinal, todos os seus colegas da escola já parecem ter iniciado suas vidas sexuais, nem que seja de forma solitária. Você sabe, eu e minha mão, minha mão e eu. O problema é que Otis não é apenas um adolescente com problemas ejaculatórios: ele entende tudo sobre sexo graças à sua mãe, que é terapeuta sexual e atende os clientes em casa. Ou seja, entender a teoria e não saber colocar nada em prática é que é a grande questão de Otis, ao menos na primeira temporada.

Quando ele conhece Maeve Wiley (Emma Mackey), uma jovem conhecida por ser rebelde, os dois acabam juntos criando uma “clínica sexual” dentro da escola, explorando tudo o que Otis sabe para dar conselhos aos alunos e além disso ganhar algum dinheiro.

A trama pode parecer esquisita à primeira vista, mas tem cenas e personagens memoráveis. O meu favorito, e acredito que seja o favorito de todo mundo, é Eric (Ncuti Gatwa), melhor amigo de Otis. Ele é negro, gay, assumido e apoiado pela família que é religiosa. Isso não é coisa que se vê todos os dias pelas séries de dramédia, certo?

Assexualidade em um contexto mainstream

A minha principal questão com Sex Education, na primeira temporada ao menos, foi o fato de que Otis poderia ser facilmente um personagem assexual. E o quão impactante seria uma série grande da Netflix colocar um personagem assexual, numa série de sucesso, com um ator já conhecido. Se você não sabe quem é Asa Butterfield agora, provavelmente não o reconheceu: ele fez O Menino do Pijama Listrado, Hugo Cabret e uma infinidade de filmes de Hollywood desde pequeno.

A assexualidade ainda é um assunto pouco tratado na mídia, e o protagonismo de personagens assexuais é quase nulo. No entanto, o problema que Otis enfrenta é algo que muitos adolescentes também enfrentam, então meu coração ficou dividido entre criticar e adorar.

Às vezes até por conta da pornografia mainstream, muitos jovens na idade de Otis – dezesseis – acham que estão atrasados e que sua vida sexual deve começar o quanto antes. E que quando não conseguem se masturbar, não conseguem ter ereções ou algo relacionado, estão “quebrados”.

O ser quebrado

“Quebrado” é uma palavra muito usada na série, de muitos jeitos diferentes. Você está quebrado porque não consegue ter um orgasmo, ou porque não sabe do que sua namorada gosta. Você está quebrado porque não sabe do que VOCÊ gosta, ou porque finge gostar de coisas que não gosta. Felizmente, tudo o que está quebrado pode ser consertado, e é essa a premissa da tal “clínica sexual” que Otis e Maeve criam dentro do colégio.

Still da segunda temporada de Sex Education
(Foto: Divulgação)

De qualquer forma, muitas questões sobre representatividade foram resolvidas na segunda temporada, incluindo sobre assexualidade. Lançada agora, dia 17 de janeiro, a segunda temporada foca no modo como Maeve e Otis seguiram suas vidas após desastres ocorridos no final da primeira parte da trama. Afinal, em uma série adolescente, desastres sempre acontecem.

Em uma pequena lista de não-padrões em séries adolescentes, podemos citar: mais de um personagem negro importante para a trama, uma nova personagem que é gorda e não tem sua história baseada no fato de ser gorda, personagem assexual, personagens multissexuais na mesma série (um personagem bi e um personagem pansexual), um casal lésbico criando um filho, explorar a sexualidade quando se é mais velho, um personagem PCD cadeirante, dentre muitos outros.

Muita coisa ao mesmo tempo, eu sei, e é essa a questão: estamos tão acostumados a séries com todo mundo hétero e branco, que quando um programa resolve incluir todo mundo, à primeira vista nós estranhamos.

Diversidade aprofundada

O mais importante em Sex Education foi a forma como a Netflix ouviu os espectadores da série, adicionando pontos importantes, dúvidas e personagens mais aprofundados. A primeira temporada é mais leve, divertida pelo fato de o sexo ser tratado com tanta naturalidade, mas tanta, que algumas cenas chegam a ser cômicas e criativas o suficiente para que atinjam ambos os públicos: jovens e adultos.

Há momentos de rir e chorar, assim como em Skins. Com a diferença que Skins, mesmo não tendo o sexo como foco, não teve nenhuma responsabilidade por algumas de suas cenas na época. A primeira vez que foi citada uma camisinha em Skins foi na terceira geração, lá para a sexta temporada da série. E isso não é um estraçalho negativo, Skins foi e continua sendo uma das séries que moldou minha adolescência. Mas considerando a época em que foi lançada, já deveria ter esse tipo de cena muito antes.

Eu precisava entregar esse texto dia 18 de janeiro. A série saiu dia 17. Não preciso nem dizer como foi ótimo ter a desculpa de assistir tudo de uma vez em um dia só.

E aí, vai assistir?

Como sempre, me aprofundar muito nas cenas seriam spoilers que qualquer leitor odiaria saber por mim, então minha primeira e grande dica para quando for assistir Sex Education: preste atenção nos diálogos. Mesmo sendo uma série adolescente, que se passa em uma cidade britânica minúscula, ela ainda consegue conversar de formas que nenhuma outra série recente assim conversou comigo.

Gillian Anderson, interpretando a mãe de Otis e terapeuta sexual Jean Milburn.
Gillian Anderson interpreta a mãe de Otis, Jean Milburn
(Foto: Divulgação)

A segunda temporada vai além das questões sexuais e coloca dinâmicas que questionam o amor, as escolhas e até mesmo uniões de personagens muito inesperados. Relações entre pais e filhos também são muito exploradas, principalmente agora na segunda temporada, onde a clínica sexual de Otis e o trabalho de terapeuta de sua mãe acabam acidentalmente se chocando dentro do colégio. (O quê?! Tá no trailer!)

Além disso, você vai acabar se deparando com uma versão erótica de Romeu e Julieta situada no espaço sideral em uma floresta de pintos. Como encaixaram isso numa série sobre educação sexual? 

Sei lá. Acho melhor você descobrir aí.

Sobre o Autor

Escritora de histórias de terror, fantasia & outras coisinhas mais, entusiasta da cultura geek e amante de gifs de gatinhos. Resolvi ser modelo pra aprender a fazer carão. (Não que tenha dado muito certo.)

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