Uma letra pingando sangue, um rosto assustado e uma promessa difícil de cumprir. No fundo da locadora, uma capa dessas resolvia a noite. Você levava a fita e descobria em casa se tinha encontrado uma pequena maravilha ou perdido o dinheiro do aluguel. Parte da graça estava nessa aposta.

Na tela do celular, a escolha pode render outro roteiro: deslizar, abrir um trailer, fechar, continuar procurando. Até bater aquela vontade de rever alguma coisa conhecida. É desse impulso de arriscar pela capa que Invocação me lembra. Tem cara de descoberta de prateleira e, para mim, entrega a diversão que a embalagem promete.
Antes de continuar, o aviso necessário: o filme é nosso. Minha relação com ele está declarada, assim como o entusiasmo. Agora dá para falar do que funciona.
A premissa já apresenta o tamanho da encrenca. Vlad, um metaleiro, acaba invocando uma entidade e faz um acordo para conseguir a mulher da sua vida. A alma entra como pagamento. Quando chega a cobrança, porém, ele descobre que entendeu muito pouco do negócio.

É uma boa porta de entrada para um terrir com espírito de anos 80: desejo, decisões questionáveis e uma presença sobrenatural pronta para complicar tudo. A piada começa na confiança de alguém que acha possível negociar com o inferno e sair no lucro.

Vlad funciona porque parece ter uma vida antes de o filme começar. O colete e a jaqueta vêm de The Warriors, de Walter Hill, lançado em 1979: Rafa Knoll, diretor de Invocação, usou o filme como referência para criar o figurino do personagem. Dá para entender a escolha. É uma roupa que comunica pertencimento logo de cara. Mas o que convence mesmo é a combinação entre roupa, personagem e quarto. Dá para imaginar alguém assim morando ali, usando aquelas peças numa terça-feira qualquer. O visual tem familiaridade.
A entidade traz outra energia. A maquiagem me remete ao black metal e dá ao personagem uma presença que combina com o absurdo da situação. Sua entrada em cena, assustando Vlad, foi o momento em que eu ri de verdade. O susto tem tempo de comédia, e a reação dele ajuda a completar a piada.

Essa dinâmica sustenta boa parte do interesse. A entidade consegue ser ameaçadora e engraçada dentro da mesma cena, enquanto Vlad precisa lidar com as consequências de um desejo que parecia muito mais simples antes de ganhar resposta.
Eu gosto das pornochanchadas brasileiras que flertam com o terror, e reconheço em Invocação um pouco desse prazer de misturar registros. Também me lembra aquelas comédias juvenis de horror em que uma escolha ruim rende uma noite inteira de problemas. São parentescos que encontro assistindo: o humor diante do perigo, o desejo metendo os personagens em confusão, a disposição para abraçar o absurdo.

Minha principal curiosidade era como o filme amarraria tudo isso às cenas de sexo. O pacto já oferecia um conflito; faltava saber se ele continuaria fazendo diferença quando a história chegasse a elas.
É aí que Invocação me ganha. O acordo, a cobrança e a negociação conduzem a narrativa até esse ponto. O sexo participa das consequências do que Vlad colocou em movimento, mantendo o conflito em cena.
Nos encontros entre ele e a entidade, sensualidade e ameaça também convivem. O desconforto permanece junto do desejo, e essa mistura dá personalidade ao filme. A mesma presença que rende uma risada pode deixar a situação estranha no instante seguinte.

O cuidado aparece justamente nesses detalhes: um figurino que faz sentido naquele quarto, uma maquiagem que ajuda a construir o personagem, um susto que encontra a hora da piada. É assim que o filme aproveita sua simplicidade e faz o baixo orçamento render.
Minha nota é 8/10. Gosto do Vlad reconhecível, da entidade que bagunça o tom de cada encontro e de uma história que sustenta a própria premissa até a cobrança.
Invocação está no Quente Club. Se fosse uma fita de locadora, eu levaria pela capa. Depois de assistir, voltaria para procurar outros filmes na mesma prateleira.
Ficha técnica
- Título: Invocação (2023)
- Gênero: adulto, terror e comédia (terrir)
- Roteiro e direção: Rafa Knoll
- Edição: Dolores Haze
- Elenco: Mário (Vlad), Lady Milf (a Entidade) e Qween (Maya)
- Estúdio: Xplastic
- Classificação: 18 anos
- Onde assistir: Quente Club (versão sem cortes) · página do filme



