{"id":114,"date":"2014-08-05T22:19:21","date_gmt":"2014-08-06T01:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/xplastic.com.br\/sodomia-necrofilia-e-magia-negra\/"},"modified":"2020-05-16T15:29:50","modified_gmt":"2020-05-16T18:29:50","slug":"sodomia-necrofilia-e-magia-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xplastic.com.br\/blog\/sodomia-necrofilia-e-magia-negra\/","title":{"rendered":"Sodomia, necrofilia e magia negra"},"content":{"rendered":"<p>Um conto de terror psicol\u00f3gico que mistura sodomia, necrofilia e magia negra. Divirta-se.<br \/>\n<strong>Toneladas de ferro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Segunda feira &#8211; 11 de fevereiro de 2013 &#8211; 23h16<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNunca imaginei que isso fosse acontecer comigo. Vi coisas parecidas somente em filmes ou jornais! Agora, estou sentindo na pele o que \u00e9 estar perdido, ou melhor, preso. Para piorar, a escurid\u00e3o \u00e9 total. A luz do celular \u00e9 fraca, mas tenho que us\u00e1-la para poder escrever esse relato, pois quero poupar a energia de minha lanterna.<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Tom\u00e1s. Trabalho como T\u00e9cnico de Minera\u00e7\u00e3o no departamento de engenharia da Vale do Rio doce, aqui no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero em Minas Gerais (especificamente na sede das instala\u00e7\u00f5es da futura Mina Apolo, a qual acabar\u00e1 de vez com o que resta de paisagem na Serra do Gandarela). Sinceramente, n\u00e3o tenho orgulho em dizer que trabalho com minera\u00e7\u00e3o de ferro!\u2028&nbsp;Estamos presos nessa caverna (ou gruta subterr\u00e2nea) desde a manh\u00e3 de hoje. Escrevi no plural, pois comigo est\u00e3o duas pessoas: Edson (Engenheiro, e meu amigo de inf\u00e2ncia), com o qual tenho prazer trabalhar; e JP, T\u00e9cnico de Minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, encarregado pelo mapeamento da regi\u00e3o da serra. Assim como eu, Edson e JP s\u00e3o funcion\u00e1rios da Vale.<br \/>\nAgora, irei deixar registrado como as coisas aconteceram.<\/p>\n<p>Ao caminhar sozinho pelas margens do rio \u201cRibeir\u00e3o da Prata\u201d, JP percebeu que o n\u00edvel da \u00e1gua em um determinado ponto, onde h\u00e1 uma gruta no pared\u00e3o rochoso, estava baixo. Dessa forma, outra passagem (ou outra gruta) aparecera. Ent\u00e3o, imediatamente entrou em contato com Edson solicitando ajuda para a realiza\u00e7\u00e3o de cataloga\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica. Meu amigo atendeu o chamado e me convidou para ir com ele, pois tenho experi\u00eancia em trabalhos de cataloga\u00e7\u00e3o, feitos aqui na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>E ai est\u00e1 o erro! N\u00f3s viemos&#8230; Rapidamente. Mas n\u00e3o avisamos ningu\u00e9m do nosso departamento sobre o que iriamos fazer, ou para \u201conde\u201d est\u00e1vamos indo. Isso foi a corda no nosso pesco\u00e7o. JP, entusiasmado com a descoberta, tamb\u00e9m n\u00e3o passara a coordenada para outros al\u00e9m de mim e Edson.<\/p>\n<p>O resultado? Entramos&#8230; Contemplamos essa maravilha geol\u00f3gica (uma gigantesca caverna subterr\u00e2nea). Mas minutos depois, quando decidimos sair para chamar o resto da nossa equipe, percebemos que a \u00e1gua do rio subira ao n\u00edvel normal, de maneira que se tent\u00e1ssemos atravessar a \u201cnova passagem\u201d a nado, certamente morrer\u00edamos afogados, ou ser\u00edamos arrastados pela for\u00e7a da correnteza.\u2028 Isso ocorreu por volta de dez horas da manh\u00e3. Em seguida, decidimos n\u00e3o nos preocupar e esperar com calma, pois o n\u00edvel d\u2019\u00e1gua certamente baixaria novamente. Ok! No papel parece f\u00e1cil&#8230; Mas a verdade \u00e9 que estamos esperando por isso h\u00e1 mais de 13 horas! E nada da \u00e1gua baixar.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o entendemos o que aconteceu. Talvez um evento possa ter afetado o curso do rio por alguns minutos, os quais foram suficientes para nos trancafiar. Mas \u00e9 estranho pensar isso, porque em raz\u00e3o de trabalharmos na opera\u00e7\u00e3o da futura instala\u00e7\u00e3o da Mina Apolo, temos o controle e o mapeamento de tudo que ocorre na regi\u00e3o da Serra. A verdade \u00e9 que fomos muito inconsequentes quando, sem avisar a ningu\u00e9m, simplesmente entramos naquele \u201cburaco de cobra\u201d, que nos trouxe at\u00e9 aqui dentro. Agora, temos que suportar nosso ato imprudente!<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos totalmente encrencados quando o assunto \u00e9 comida. Edson trouxe algumas bolachas (o Gordinho n\u00e3o sai do escrit\u00f3rio para encarar a serra sem levar, no m\u00ednimo, um pacote de Trakinas!), e em minha mochila h\u00e1 diversas barrinhas de cereal. Agora, a nossa sorte \u00e9 que o trabalho de JP o obriga a passar diversas horas nas instala\u00e7\u00f5es das minas e terrenos da Vale, na regi\u00e3o serrana. Logo, o cara sempre carrega seus suprimentos. Hoje, por exemplo, trouxe um pacote de bolacha Sete Capas, uma banana enrolada em papel alum\u00ednio, duas ma\u00e7\u00e3s, e um pacote de bolacha de \u00e1gua e sal.<\/p>\n<p>Para minha surpresa&#8230; At\u00e9 uma pequena garrafa t\u00e9rmica, contendo caf\u00e9, estava em sua mochila, com meia d\u00fazia de copinhos descart\u00e1veis!<\/p>\n<p>Ap\u00f3s inventariarmos esses \u201cpreciosos\u201d itens, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que, na pior das hip\u00f3teses (que \u00e9 ter de esperar 5 ou 6 dias para sairmos) teremos alimento, por\u00e9m de forma racionada. Sinceramente, estou preocupado&#8230; Sei que os dois tamb\u00e9m est\u00e3o! No momento, sem outras op\u00e7\u00f5es, decidimos tentar dormir e poupar nossas energias, para podermos procurar uma sa\u00edda alternativa amanh\u00e3, caso a \u00e1gua n\u00e3o baixe novamente.<\/p>\n<p>Edson j\u00e1 dormiu! Ele \u00e9 o tipo de pessoa que nunca perde o \u00e2nimo. H\u00e1 alguns minutos, por exemplo, estava lamentando o fato de n\u00e3o haver um baralho para jogarmos p\u00f4quer, apostando nossas cotas di\u00e1rias de bolachas. Sinceramente&#8230; Gostaria de poder ajud\u00e1-lo. Sei que anda muito preocupado com o casamento pr\u00f3ximo. Tanto que nos \u00faltimos meses est\u00e1 se matando de trabalhar.\u2028&nbsp;JP, por outro lado, aparenta ser um homem de poucas palavras. Sendo at\u00e9 estranho. De n\u00f3s tr\u00eas, \u00e9 o que mais demonstra preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa situa\u00e7\u00e3o. Apesar de ser um cara alto e magro, na empresa eu s\u00f3 o vi uma vez, em um evento de vacina\u00e7\u00e3o contra preven\u00e7\u00e3o \u00e0 gripe, que ocorreu na matriz. Bastante t\u00edmido, conversa praticamente sem olhar nos olhos da outra pessoa, e penso que isso se deve ao fato de ser estr\u00e1bico. Deve ter vergonha. No momento, assim como Edson, ele procura dormir tamb\u00e9m&#8230; Mas n\u00e3o sei se consegue!<\/p>\n<p>A caverna est\u00e1 silenciosa. Escuto apenas o som de diversas goteiras se chocando contra as pedras do ch\u00e3o. A temperatura \u00e9 relativamente agrad\u00e1vel, devendo oscilar entre 17 e 25 graus. O local onde estamos \u201cacampados\u201d trata-se de um sal\u00e3o rochoso, cujo teto possui estalactites que aparentam possuir mais de cinco metros de comprimento. O ch\u00e3o \u00e9 totalmente desforme, com rastros de eros\u00e3o em todo o lugar, o que indica que, no passado, poderia haver um len\u00e7ol fre\u00e1tico aqui. Al\u00e9m disso, restos de desmoronamentos de rochas, ca\u00eddos ao redor de imensas estalagmites, d\u00e3o a impress\u00e3o de que estamos em um cen\u00e1rio onde uma explos\u00e3o ocorrera a pouco tempo.<\/p>\n<p>Notamos que, al\u00e9m desse enorme sal\u00e3o onde estamos, tamb\u00e9m existem diversas galerias (corredores) por aqui. A principal, que foi por onde entramos, est\u00e1 totalmente alagada agora, mas existem outras que pretendemos explorar amanh\u00e3, com o intuito de achar uma poss\u00edvel sa\u00edda. Mas, pela minha experi\u00eancia, acho dif\u00edcil! N\u00e3o quero falar isso para os caras, mas a not\u00f3ria falta de Morcegos indica que n\u00e3o h\u00e1 algum espa\u00e7o ou fenda que d\u00ea passagem para o lado de fora da serra, pois esses animais precisam dessas brechas para sair durante a noite e se alimentarem de frutas.<\/p>\n<p>Mudando de assunto, decidi escrever para distrair a cabe\u00e7a e relaxar um pouco (por sorte esse caderno estava em minha mochila!). Nesse momento, os familiares de Edson e de JP devem estar desesperados \u00e0 procura deles, pois como falei, ningu\u00e9m sabe que estamos aqui. Mas n\u00e3o posso falar o mesmo sobre mim! Nessa noite n\u00e3o existe algu\u00e9m sentindo minha falta&#8230; E a culpa \u00e9 minha&#8230; Mere\u00e7o pagar caro pelo que fiz! Ent\u00e3o, por esse motivo eu estou escrevendo&#8230; Para deixar a mente ocupada e tentar afastar os fantasmas da minha consci\u00eancia, que teimam em me assombrar. Principalmente aqui, nessa escurid\u00e3o infinita.<\/p>\n<p>Deus? Para mim isso \u00e9 piada de mau gosto! Pouco tempo antes de ir dormir, JP perguntou minha religi\u00e3o. Respondi dizendo que n\u00e3o acredito em Deus, em Diabo, em Anjos ou em dem\u00f4nios. Ele apenas sorriu e disse: \u201cN\u00e3o amar Deus \u00e9 natural. Agora, n\u00e3o temer o Diabo pode ser perigoso. Cuidado!\u201d. E essa foi a primeira vez, desde que chegamos aqui de manh\u00e3, que JP me encarou, olhando direto em meus olhos. Sinceramente&#8230; Esse cara me d\u00e1 medo! O que ele quis dizer com \u201cTemer o Diabo!\u201d? Juro que tive vontade de devolver: \u201cJP&#8230; Olhe para mim&#8230; Eu sou o Diabo!\u201d.<\/p>\n<p>E para falar a verdade, eu n\u00e3o estaria totalmente errado!\u2028&nbsp;\u2028&nbsp; &nbsp; &nbsp;Espero ter melhores noticias amanh\u00e3, e tor\u00e7o para que tudo isso n\u00e3o passe de um grande susto. Assim como os outros caras, vou tentar dormir agora. A escurid\u00e3o, somada aos relaxantes sons das goteiras, me fazem querer pegar no sono.\u2028&nbsp;Boa sorte para todos n\u00f3s!<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>\u2028Ter\u00e7a feira &#8211; 12 de fevereiro de 2013, 20h25<\/strong><\/p>\n<p>As coisas est\u00e3o ficando feias aqui! Um acidente horr\u00edvel aconteceu com Edson durante a tarde de hoje.<\/p>\n<p>Antes de tudo&#8230; A primeira coisa que fizemos ao acordar nessa manh\u00e3 foi verificar a galeria inundada. Estava do mesmo jeito! Logo, decidimos procurar uma sa\u00edda alternativa, o que nos levou a desbravar as galerias dessa caverna (n\u00e3o todas&#8230; obviamente!). JP, o mineiro mais capacitado, ia \u00e1 frente. Empunhando seu fac\u00e3o e iluminando o caminho com a luz amarela da lanterna. Dessa forma, caminhamos v\u00e1rios metros por um trecho sinuoso, at\u00e9 que contemplamos uma esp\u00e9cie de desmoronamento, que bloqueava a passagem.\u2028&nbsp;\u2028&nbsp; &nbsp; &nbsp;Percebemos que em meio aos escombros das rochas, havia peda\u00e7os de madeira e ferro. Observamos bem e conclu\u00edmos que, do outro lado daquele desmoronamento, poderia haver os restos de alguma mina de ouro desativada, pois aqueles objetos lembravam colunas de sustenta\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 algo muito comum em minas antigas.<\/p>\n<p>JP iluminou o alto do desmoronamento e percebemos que a galeria n\u00e3o estava totalmente bloqueada, mas havia brechas na parte superior, grandes o bastante para caber um homem. E esse homem era Edson! Sem titubear, foi o primeiro a se oferecer para checar o que poderia haver do outro lado.<\/p>\n<p>Que droga! Sinto que eu deveria ter feito aquilo no lugar dele! Ou pelo menos t\u00ea-lo impedido de subir aquela porra de desmoronamento! Ser\u00e1 que apenas eu lamento, constantemente, o fato de n\u00e3o possuir uma m\u00e1quina do tempo que me permitisse apagar os erros do passado? Acredito que n\u00e3o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230; O gordinho subiu. A altura deveria ser de aproximadamente 4 metros, e ele estava indo bem. Mas em dado momento, pisou em uma madeira podre, a qual se partiu fazendo-o despencar! E foi ai que o pior aconteceu! Ao perceber que iria cair, Edson optou por tentar se segurar \u00e0 uma barra de ferro que estava ao lado. N\u00e3o alcan\u00e7ou. Apenas esbarrou a m\u00e3o direita nessa barra. Mas de alguma forma a alian\u00e7a de noivado ficou enroscada ao ferro, possivelmente em algum parafuso ou prego. Dessa forma, meu amigo n\u00e3o conseguiu se segurar, e acabou caindo. Mas o dedo anelar da m\u00e3o direita permaneceu preso na alian\u00e7a, enroscada na barra. Logo, em raz\u00e3o do peso do corpo, o dedo foi decepado.<\/p>\n<p>Quando Edson caiu, sua perna direita se quebrou, bem no meio da canela (como ele caiu na vertical, provavelmente o osso n\u00e3o suportou o peso do corpo!).&nbsp; O som estralado da quebra do osso foi t\u00e3o alto que na hora fiquei com \u00e2nsia. Eu e JP n\u00e3o conseguimos acreditar em tamanho estrago. Em seguida, tirei minha camisa e tentei estancar a grave hemorragia do ferimento na m\u00e3o direita, enquanto que JP lutava para devolver o osso da perna ao seu devido lugar. N\u00e3o tenho sadismo suficiente para descrever o sofrimento do meu amigo. N\u00e3o vou fazer isso! Mas confesso que me segurei para n\u00e3o chorar na frente dele, ao v\u00ea-lo sofrer daquele jeito.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, um detalhe mexeu no fundo do meu cora\u00e7\u00e3o. Enquanto est\u00e1vamos carregando Edson para o sal\u00e3o rochoso, onde ficam nossas coisas&#8230; Ele me olhou e disse chorando: \u201cTom\u00e1s&#8230; Volta l\u00e1 cara, e tente recuperar o meu dedo, pois o m\u00e9dico pode reimplant\u00e1-lo quando sairmos daqui!\u201d. N\u00e3o sei o porqu\u00ea, mas escutar aquilo me machucou muito. Sabia que n\u00e3o iria adiantar, pois n\u00e3o havia como estocar o dedo em gelo. Mesmo se fosse poss\u00edvel, n\u00e3o sabemos quanto tempo vamos ficar aqui&#8230; De hora em hora checamos a galeria inundada e&#8230; Simplesmente a \u00e1gua permanece l\u00e1&#8230; Sorrindo para n\u00f3s!<\/p>\n<p>Mas eu fiz! Dei um jeito de subir (tive muito cuidado), e consegui cumprir minha miss\u00e3o. E o que me confortou um pouco, \u00e9 que pelo menos Edson iria ter a alian\u00e7a de noivado de volta! O dedo? Este foi enrolado em um dos pap\u00e9is alum\u00ednios que JP trouxera para revestir suas frutas, e devolvido ao dono. Novamente, segurei meu choro quando vi meu amigo pegando o dedo decepado e colocando-o carinhosamente dentro de sua bolsa&#8230; Ser\u00e1 que ele tinha tanta esperan\u00e7a de fazer uma reimplanta\u00e7\u00e3o? N\u00e3o vou falar nada&#8230; N\u00e3o fui eu quem perdeu um membro&#8230; E n\u00e3o fa\u00e7o ideia da dor f\u00edsica e psicol\u00f3gica que isso deve causar!<\/p>\n<p>No momento, Edson est\u00e1 deitado ao meu lado. A hemorragia, causada pelo corte do dedo, j\u00e1 cessou. Mas a m\u00e3o est\u00e1 inchada e roxa. Al\u00e9m disso, a perna (com o pior ferimento!), ainda sangra muito. JP fez um \u00f3timo trabalho, escondendo o osso exposto. Mas muito tecido muscular fora danificado, de maneira que uma boa parcela de sangue se perdeu. Al\u00e9m disso&#8230; Meu amigo est\u00e1 com muita febre, e as vezes aparenta sinais de del\u00edrio! Pouco tempo atr\u00e1s, por exemplo, me chamou hist\u00e9rico (JP at\u00e9 se aproximou correndo, para ver o que acontecia), e disse que um novo dedo estava crescendo. Quando observei, ele havia retirado o \u201cCurativo\u201d na m\u00e3o direita e co\u00e7ava o ferimento com as unhas dos dedos da m\u00e3o esquerda, fazendo com que a hemorragia retornasse.<\/p>\n<p>J\u00e1 estamos na segunda noite. Em raz\u00e3o de n\u00e3o haver sinal de luz solar, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos aqui h\u00e1 v\u00e1rios dias. As horas passam, n\u00e3o conseguimos dormir direito e, para piorar, temos que lidar com a situa\u00e7\u00e3o grave na qual Edson se encontra. Comemos algumas bolachas, bebemos \u00e1gua, mas nossos nervos est\u00e3o tensos! A pergunta que n\u00e3o conseguimos deixar de fazer&#8230; Quanto tempo passar\u00e1 at\u00e9 sairmos daqui? J\u00e1 devem estar nos procurando! Mas onde?\u2028&nbsp;\u2028&nbsp; &nbsp; &nbsp;Depois do que acontecera a Edson, desistimos de tentar verificar o outro lado daquele desmoronamento. Amanh\u00e3, JP disse que ir\u00e1 explorar outras galerias, enquanto que eu ficarei cuidando de meu amigo.<br \/>\nFor\u00e7a para todos n\u00f3s!<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Quarta feira &#8211; 13 de fevereiro de 2013 &#8211; 19h20<\/strong><\/p>\n<p>Edson faleceu&#8230;<br \/>\nNesta madrugada, dormi por cerca de 2 ou 3 horas. Quando acordei, com vontade de urinar, percebi que meu amigo n\u00e3o respirava. Tirei a blusa de frio dele, tentei fazer massagem card\u00edaca. Tarde demais! Os m\u00fasculos j\u00e1 estavam r\u00edgidos. JP percebeu o que acontecia e tentou me ajudar. N\u00e3o adiantou&#8230; Edson estava morto!<\/p>\n<p>O gordinho era meu melhor amigo. A \u00fanica pessoa que entendia meus problemas e que conhecia a verdade sobre mim! Agora que eu o perdi&#8230; N\u00e3o tenho mais ningu\u00e9m. N\u00e3o sei o que dizer&#8230; Onde est\u00e1 Deus neste momento? Estou muito triste, e fico mais ainda s\u00f3 de pensar em como a fam\u00edlia dele ficar\u00e1 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Pouco depois, por volta de 7 horas da manh\u00e3, decidimos levar o corpo para uma das galerias, e deixa-lo temporariamente \u201csepultado\u201d sobre um punhado de pedras. Obviamente, quando algu\u00e9m nos resgatar ou quando conseguirmos sair daqui, vamos dizer a localiza\u00e7\u00e3o exata do corpo, para que a fam\u00edlia realize suas devidas cerimonias. A alian\u00e7a de noivado ficou em minha carteira. Pretendo entrega-la para Amanda pessoalmente!<\/p>\n<p>Outra parte ruim, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte de Edson, \u00e9 que agora JP passa a ser minha \u00fanica companhia. Como j\u00e1 disse, n\u00e3o gosto do jeito esquisito desse cara e, para piorar, ap\u00f3s colocarmos o corpo sob as pedras, em uma galeria pr\u00f3xima ao desmoronamento (onde o fat\u00eddico acidente aconteceu!), novamente o cara tocou no assunto \u201cReligi\u00e3o\u201d. Merda! Odeio falar sobre essas coisas&#8230; Muito menos sobre Deus, Jesus e etc&#8230;<\/p>\n<p>Fui arrogante! Sem papas na l\u00edngua, rebati todos os argumentos de JP (a respeito da import\u00e2ncia da f\u00e9), de forma \u00e1rdua e impaciente, deixando claro que eu n\u00e3o era religioso e n\u00e3o gostava de falar sobre o assunto. Adicionalmente, falei que o acidente ocorrido com Edson foi apenas uma fatalidade, que est\u00e1 sujeita a acontecer com qualquer um. Ent\u00e3o, percebendo que um clima chato iniciava-se entre n\u00f3s, decidi quebrar o gelo e virar a mesa: Perguntei qual era a religi\u00e3o dele. A resposta n\u00e3o era o que eu esperava!<\/p>\n<p>\u201cSou integrante de uma seita Sat\u00e2nica, aqui de Minas Gerais\u201d<\/p>\n<p>A minha incredulidade, em tudo que n\u00e3o se pode ver e tocar, contrastou-se com o que senti ao escutar aquilo. Foi um tremendo desconforto&#8230; N\u00e3o sei explicar&#8230; Mesmo JP tendo me respondido de forma tranquila e pacifica, a resposta soou agressiva para mim&#8230; Quase um tapa na cara! Nunca estive de frente com uma pessoa que dissesse ser Satanista. E um frio tomou conta do meu estomago, quando lembrei uma das frases que JP me dissera no primeiro dia que chegamos aqui: \u201cN\u00e3o amar Deus \u00e9 natural. Agora, n\u00e3o temer o Diabo pode ser perigoso. Cuidado!\u201d. &nbsp;E as coisas pioraram durante a tarde!<\/p>\n<p>Quando o rel\u00f3gio marcou 14h00, eu conversava com JP, at\u00e9 que ele mudou de assunto e me fez uma proposta. Disse que entendia o fato de eu ser c\u00e9tico e n\u00e3o me culpava por isso. No entanto, alegou que se eu concordasse ele poderia tentar fazer um procedimento voltado \u00e0 cren\u00e7a religiosa dele, no qual buscaria ajuda divina (do diabo talvez?) sobre o nosso problema. N\u00e3o dei muito credito para aquela ladainha&#8230; Mas perguntei como seria o tal \u201cprocedimento\u201d. E fiquei em estado de choque, quando ele disse que pretendia utilizar o cad\u00e1ver de Edson para se comunicar com uma entidade protetora dele chamada \u2013 Bacal.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixei o desgra\u00e7ado terminar. Apontei o dedo na cara dele e disse que se tentasse fazer alguma coisa com o corpo de meu amigo, eu o quebraria por inteiro. JP ficou desnorteado, e sem gra\u00e7a. Achava ele que eu iria concordar com tamanha idiotice? Corroborar com a realiza\u00e7\u00e3o de um Ritual macabro, feito no corpo do meu melhor amigo, para podermos nos comunicar com um tal de&#8230; Bacal? A falta de luz solar na cabe\u00e7a deve estar deixando JP louco.&nbsp; Sinceramente, era s\u00f3 o que me faltava!<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa estressante conversa, fui verificar o n\u00edvel da \u00e1gua. Sem novidades. Ainda temos comida para 5 ou 6 dias, e \u00e9 melhor tentarmos achar alguma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida&#8230; Pois logo poderemos sofrer com a fome, o que n\u00e3o ser\u00e1 nada agrad\u00e1vel! A falta de energia no corpo \u00e9 o inimigo n\u00famero 1 de pessoas que passam por situa\u00e7\u00f5es como a nossa.<\/p>\n<p>JP est\u00e1 dormindo, e eu vou fazer o mesmo, pois a minha cabe\u00e7a est\u00e1 doendo, certamente pela falta de alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. Edson&#8230; Onde quer que voc\u00ea esteja, meu amigo, me perdoe por n\u00e3o ter te salvado&#8230; Descanse em paz!<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Quinta feira -14 de fevereiro de 2013, 17h20<\/strong><\/p>\n<p>Algo estranho, e perturbador, aconteceu nessa madrugada!<\/p>\n<p>Antes, quero relatar que, neste momento, estou escondido em uma fenda nas rochas, localizada no pared\u00e3o de uma das diversas galerias aqui da caverna. Sim&#8230; Estou escondido! Por sorte esse local \u00e9 quase impercept\u00edvel, de maneira que n\u00e3o serei encontrado facilmente!<\/p>\n<p>Tudo aconteceu por volta das 3 horas da madrugada de hoje, quando acordei sentindo uma forte dor na cabe\u00e7a. Apanhei minha lanterna e direcionei a luz onde JP dormia&#8230; N\u00e3o havia ningu\u00e9m. A primeira coisa que veio \u00e0 minha mente foi a conversa que tive com o filho da m\u00e3e na tarde de ontem, e n\u00e3o precisei fazer esfor\u00e7os para juntar as pe\u00e7as! Sabia o que ele estava fazendo! Sabia que tentava se comunicar com sua entidade protetora&#8230; Bacal.<\/p>\n<p>Mesmo tonto, me levantei e caminhei em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 galeria, onde o corpo de Edson \u201cdeveria\u201d estar guardado em paz. Carreguei a lanterna comigo, mas deixei desligada e usei apenas a fraca luz do celular para iluminar o caminho, pois queria pegar JP de surpresa. Durante o percurso, senti que escorria bastante \u00e1gua nas paredes da galeria. Dessa forma, deixei minha m\u00e3o se molhar e a coloquei em minha cabe\u00e7a, aliviando temporariamente a dor. E continuei&#8230; Caminhando sorrateiro.<\/p>\n<p>Continuei por mais alguns metros e finalmente escutei ru\u00eddos estranhos, que se destacavam em meio aos sons t\u00edpicos da caverna. Era a voz de JP, resmungando coisas que n\u00e3o consegui entender. Mas, percebendo que estava perto, e tendo conclu\u00eddo que era certo meu racioc\u00ednio sobre o que possivelmente estaria acontecendo, decidi desligar o celular e me guiar apenas pelo som. Minha ideia era acender a lanterna bem nos olhos do desgra\u00e7ado, e partir para cima dele em seguida.<\/p>\n<p>E assim eu fiz&#8230; Mas a surpresa foi maior do que eu esperava!<\/p>\n<p>Ao acender a lanterna, notei que o corpo de Edson, n\u00e3o mais sob as pedras, jazia ca\u00eddo no ch\u00e3o, totalmente despido e de bru\u00e7os. JP, tamb\u00e9m nu, estava deitado sobre o corpo. De inicio, ele me ignorou. Foi como se eu n\u00e3o estivesse presente. Ent\u00e3o, o ato continuou. Com uma das m\u00e3os, JP erguia a cabe\u00e7a do cad\u00e1ver do ch\u00e3o, segurando-a pelos cabelos. Com a outra, segurava a cintura e insistia em uma s\u00e9rie de movimentos bruscos, enquanto dizia palavras indecifr\u00e1veis.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo acreditar no que vi&#8230; JP estava fazendo sexo com o cad\u00e1ver! Era isso ent\u00e3o? Sexo?&#8230; Esse era o procedimento espiritual que poderia salvar nossas vidas? J\u00e1 li uma vez que determinadas seitas sat\u00e2nicas costumam realizar rituais secretos que envolvem sexo e orgias. Agora, realizar tal ato com uma pessoa morta \u00e9 algo que nunca passou em minha cabe\u00e7a, e acho que est\u00e1 longe da sanidade da mente humana. No entanto, a surpresa principal estaria por vir. Algo terr\u00edvel estava por acontecer.<\/p>\n<p>Mesmo chocado, corri em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 JP e o agarrei pelos bra\u00e7os, fortemente, e o atirei ao lado. Sem piedade, comecei a desferir belos socos na cara dele. At\u00e9 que, rindo, olhou para mim e disse: \u201cTarde demais&#8230; Veja voc\u00ea mesmo\u201d. E eu vi. Atr\u00e1s de mim, o cad\u00e1ver de Edson estava de p\u00e9 (ligeiramente torto para a direita, em raz\u00e3o da canela quebrada), apontando o indicador na minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiquei petrificado. N\u00e3o imaginava que o medo fosse t\u00e3o poderoso. Mas isso \u00e9 normal, as pessoas temem o desconhecido. E naquela situa\u00e7\u00e3o eu vivenciava uma experi\u00eancia, literalmente, sem \u201cexplica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica\u201d. Eu mesmo constatei a morte de Edson, verifiquei que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o batia e os m\u00fasculos estavam r\u00edgidos como pedra. Mas ele estava l\u00e1, em p\u00e9, apontando o dedo em minha dire\u00e7\u00e3o! Ou estaria possu\u00eddo por \u201cBacal\u201d?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a aus\u00eancia de luz solar e de vitaminas, ou at\u00e9 mesmo a minha forte dor de cabe\u00e7a, me fizera delirar e ver aquilo? N\u00e3o sei&#8230; At\u00e9 queria acreditar que fora uma ilus\u00e3o&#8230; Mas a situa\u00e7\u00e3o ficou mais real quando o cad\u00e1ver, al\u00e9m de se levantar, resolveu falar: uma fuma\u00e7a volumosa de cor preta passou a sair da boca&#8230; Seguida de uma voz feminina, abafada, que dizia \u201cVoc\u00ea precisa pagar pelo que fez&#8230; pagar com a pr\u00f3pria vida\u201d!<\/p>\n<p>A cada palavra, a fuma\u00e7a negra se propagava. A luz da lanterna, em minha m\u00e3o, tremia e eu j\u00e1 estava com dificuldade de segura-la. Em seguida, olhei para JP, ainda nu, e percebi que ele j\u00e1 estava de p\u00e9, segurando seu fac\u00e3o. Logo, caminhou em minha dire\u00e7\u00e3o e repetiu as mesmas palavras que o cad\u00e1ver possu\u00eddo acabara de dizer: \u201cVoc\u00ea precisa pagar pelo que fez&#8230; N\u00e3o pode escapar e sair com vida\u201d. Nesse momento, observei que a fuma\u00e7a preta tamb\u00e9m saia da boca de JP! Que esp\u00e9cie de ritual era aquele? Qual era o objetivo de JP em promover aquela cerimonia bizarra? N\u00e3o esperei por respostas, pois o desgra\u00e7ado, forte e alto como um jogador de basquete, se aproximava de mim, segurando aquele fac\u00e3o afiad\u00edssimo.<\/p>\n<p>Como o caminho da galeria ainda estava fresco na mem\u00f3ria, minha rea\u00e7\u00e3o foi desligar a lanterna e correr. Alguns metros adiante, liguei a luz do celular e consegui achar a sa\u00edda para ao sal\u00e3o, onde eu dormia. Apanhei minha mochila e continuei correndo por outra galeria. Lembro que acedi a lanterna, por alguns segundos, e percebi que ningu\u00e9m me seguia. Mesmo assim, continuei rapidamente, ao fundo. At\u00e9 que finalmente, por sorte, encontrei essa grande fenda, na qual estou agora. A fissura na entrada \u00e9 pequena, mas o espa\u00e7o aqui dentro \u00e9 suficiente para eu permanecer at\u00e9 as coisas se acalmarem&#8230; Se \u00e9 que isso vai acontecer!<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o acredito em tudo que houve. Estou com muito medo. A \u00fanica coisa que tenho certeza \u00e9 que o louco do JP quer me matar&#8230; Com golpes de fac\u00e3o! Tenho que ter cuidado e n\u00e3o me deixar ser pego, se quiser sobreviver. Quanto \u00e0quela coisa que possuiu o corpo de Edson, Bacal? N\u00e3o sei o que dizer. Por\u00e9m, a voz feminina me era muito familiar! N\u00e3o pode ser&#8230; N\u00e3o! N\u00e3o pode ser ela!<\/p>\n<p>Uma coisa est\u00e1 martelando a minha cabe\u00e7a: Se o mal existe&#8230; Ent\u00e3o, o bem tamb\u00e9m deve existir! Logo&#8230;<\/p>\n<p>Deus&#8230; Voc\u00ea existe?<\/p>\n<p>Preciso desligar a luz do celular e parar de escrever. Estou escutando barulhos estranhos, ecoando ao lado de fora dessa fenda. Ser\u00e1 JP me procurando com seu fac\u00e3o afiado? Ou ser\u00e1 o cad\u00e1ver possu\u00eddo?<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Sexta feira &#8211; 15 de fevereiro de 2013, 09h10<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que estou ficando louco. Pois n\u00e3o consigo acreditar no que est\u00e1 acontecendo! Nessa manh\u00e3 eu acordei por volta de 7 horas, escutando gritos! Para piorar, tratava-se da voz de Edson, dizendo: \u201cTom\u00e1s&#8230; Socorro Tom\u00e1s&#8230; Me ajuda Brother &#8230;\u201d. Porra! Apenas Edson me chamava assim \u2013 \u201cBrother\u201d. N\u00e3o me lembro de ele ter falado dessa maneira na frente de JP. Tomara que seja fruto da minha imagina\u00e7\u00e3o, ou que seja apenas um sonho! Mesmo assim, n\u00e3o consigo esquecer tudo o que aconteceu. O que foi aquilo afinal de contas? Uma coisa tenho certeza \u2013 N\u00e3o foi sonho!<\/p>\n<p>Ontem, ap\u00f3s terminar de escrever, os estranhos barulhos ao lado de fora cessaram-se. Desde ent\u00e3o, o sil\u00eancio reina nessa caverna. A madrugada se passou, e acredito que consegui dormir apenas 2 ou 3 horas. Essa fenda, onde estou escondido, \u00e9 bastante gelada. Por\u00e9m, tenho sorte de haver goteiras de \u00e1gua, que poderei tomar em caso de sede.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto escrevia o trecho acima, senti algo tocando minha perna direita&#8230; Como se fosse uma m\u00e3o, pois dava at\u00e9 para sentir os dedos, subindo pela minha canela e parando em meu joelho. N\u00e3o sei de onde tirei coragem, mas apontei a fraca luz do celular na dire\u00e7\u00e3o do joelho \u2013 n\u00e3o era uma m\u00e3o&#8230; Era uma caranguejeira preta, com manchas de cor laranja. Os dedos que sentia, na verdade, eram as patas do animal. Vou deix\u00e1-la parada ali por enquanto&#8230; sei que se me mover, ou espanta-la, ela poder\u00e1 me atacar!\u201d.<\/p>\n<p>No momento, al\u00e9m dos sons oriundos das goteiras, nada mais posso escutar. Sei que JP deve estar em algum lugar me procurando. Por esse motivo, estou tomando cuidado de deixar a luz do celular apontada apenas para esse caderno em que escrevo (caralho!&#8230; A Caranguejeira est\u00e1 se movendo, subindo lentamente pela minha coxa!), e sei que qualquer barulho poder\u00e1 chamar a aten\u00e7\u00e3o do desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo ficarei aqui. Restam apenas algumas bolachas e tr\u00eas barrinhas de cereal. Irei com\u00ea-las apenas quando eu j\u00e1 estiver tremendo de fome. Enquanto isso, tenho certeza de que JP est\u00e1 verificando o n\u00edvel da inunda\u00e7\u00e3o da galeria a cada hora. Preciso dar um jeito de descobrir se aquele filho da puta conseguiu escapar. Mas estou sem coragem para sair dessa fenda (a aranha j\u00e1 est\u00e1 perto da virilha. Onde esse animal vai parar?). Acho que o melhor a fazer \u00e9 ficar quieto aqui e esperar com paci\u00eancia. E pensar em alguma coisa&#8230; Alguma ideia!<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7as, come\u00e7o a entender o motivo das pessoas acreditarem em Deus, ou em religi\u00f5es. \u00c9 mais f\u00e1cil superar a dor e o medo quando se tem, como \u00faltimo recurso, algo superior onde a nossa confian\u00e7a possa ser depositada. Eu queria poder contar com tal esperan\u00e7a&#8230; Mas acho que n\u00e3o sou merecedor do perd\u00e3o de Deus, pois j\u00e1 fiz muitas coisas erradas, e sei que divindade nenhuma me perdoaria. Pois at\u00e9 parte de mim acredita que estou passando por isso por consequ\u00eancia dos meus atos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, mediante tudo isso. Eu me humilho e reconhe\u00e7o meus erros!<\/p>\n<p>Deus&#8230; Sei que passei a maior parte da minha vida enchendo a boca para dizer que voc\u00ea n\u00e3o existe. Mas agora, na situa\u00e7\u00e3o em que me encontro (a Caranguejeira voltou a caminhar&#8230; Pela minha cintura!) eu me humilho e te falo: se houver condi\u00e7\u00f5es&#8230; Pe\u00e7o do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o podre que me perdoe e me salve dessa situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho mais fam\u00edlia, ou algu\u00e9m para cuidar de mim, ou se preocupar comigo. Ressalto que n\u00e3o tenho vergonha de te dizer que estou com medo, e sem esperan\u00e7as. At\u00e9 agora n\u00e3o esque\u00e7o aquela coisa terr\u00edvel que vi ontem, pois tenho certeza que se trata do mal. E se o mal existe, o bem deve existir. Logo&#8230; Perdoe-me&#8230; Acredito que voc\u00ea existe! Deus!\u2028&nbsp;\u2028Perdoe-me! Por favor!<\/p>\n<p>A maldita Aranha acabou de descer da minha cintura, e deve estar em algum lugar ao meu lado. Se meus mantimentos acabarem, e ela ainda estiver por aqui, irei com\u00ea-la. Arrancarei seus pelos al\u00e9rgicos e a comerei&#8230; At\u00e9 viva se for preciso! Vi um cara fazendo algo parecido em um programa que passa no canal Discovery Chanel, e ele disse que isso pode salvar a vida de um sobrevivente.<\/p>\n<p>Vou desligar o celular e parar de escrever por enquanto. (se bem que nada \u00e9 melhor para descansar minha mente do que compartilhar esses terr\u00edveis momentos com quem quer que seja que ler\u00e1 isso). Espero que eu viva para poder escrever outra p\u00e1gina!<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>\u2028S\u00e1bado -16 de fevereiro de 2013, 08h05<\/strong><\/p>\n<p>Acabo de chegar a um ponto onde n\u00e3o h\u00e1 escolhas. Tenho que sair dessa fenda imediatamente e, de alguma forma, acabar com isso. E quando digo acabar com isso eu quero dizer que \u2013 Preciso encontrar e matar o desgra\u00e7ado do JP! Preciso ser r\u00e1pido, se quiser salvar minha vida. Pois nessa manh\u00e3 eu acordei (naturalmente, ou seja, sem ser despertado!), e percebi que havia um peda\u00e7o de pano ao meu lado. Ao pega-lo, senti que estava \u00famido. Liguei a luz do celular e verifiquei que havia uma inscri\u00e7\u00e3o feita em sangue, onde eu li a seguinte frase: \u201cSei que voc\u00ea est\u00e1 ai dentro e vou te matar\u201d.<\/p>\n<p>Foi JP quem escreveu? Tenho certeza que sim. Agora eu me pergunto: que esp\u00e9cie de jogo macabro esse desgra\u00e7ado quer fazer comigo? Por que n\u00e3o me matou de vez? Ou me acordou? N\u00e3o sei&#8230; E pensar sobre isso me faz ficar ainda mais aterrorizado. Ap\u00f3s ler a misteriosa frase, escrita no pano sujo, me levantei e coloquei a cabe\u00e7a para fora da fenda por alguns segundos. O silencio era total, e n\u00e3o havia nem sinal de JP ou qualquer outra pessoa. Apenas a escurid\u00e3o e o som das goteiras&#8230; Contando segundos.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sei o que fazer. Mas agora, sabendo que minha localiza\u00e7\u00e3o fora descoberta, ficar aqui \u00e9 loucura. Serei pego a qualquer momento. Ent\u00e3o, estou pensando em fazer o seguinte: irei sair e ficar ao lado de fora, um pouco mais afastado. N\u00e3o vou ligar a luz do celular e muito menos a da lanterna (mesmo se quisesse n\u00e3o poderia, pois a bateria j\u00e1 acabou!). H\u00e1 diversas pedras grandes pelo ch\u00e3o dessa caverna. Ent\u00e3o, se ele passar por aqui e tentar entrar na fenda, ser\u00e1 surpreendido por uma pedrada na cabe\u00e7a. Agora, se a noite chegar e ningu\u00e9m aparecer&#8230;Caminharei sorrateiro at\u00e9 o sal\u00e3o principal dessa caverna, onde JP provavelmente est\u00e1 dormindo, e tentarei apanhar o fac\u00e3o dele. Se eu conseguir&#8230; N\u00e3o terei ressentimentos em acorda-lo com um golpe no meio da cabe\u00e7a.\u2028&nbsp;\u2028&nbsp; &nbsp; Bom, vou para o lado de fora agora! Esperar&#8230;<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Domingo &#8211; 17 de fevereiro de 2013, 02h00 (Madrugada)<\/strong><\/p>\n<p>Chegou a hora!<\/p>\n<p>Passei a tarde inteira ao lado de fora dessa fenda, como eu havia escrito, e ningu\u00e9m apareceu. Entrei novamente, verifiquei hor\u00e1rio no celular e vejo que j\u00e1 s\u00e3o 2 horas da madrugada. JP deve estar dormindo (caso n\u00e3o tenha conseguido escapar da inunda\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Estou sem coragem. Mas tenho que fazer&#8230;<\/p>\n<p>Depois de ler a mensagem que recebi de manh\u00e3: \u201cSei que voc\u00ea est\u00e1 ai dentro e vou te matar\u201d. N\u00e3o conseguirei dormir um minuto sequer. Preciso resolver isso de uma vez por todas. N\u00e3o tenho escolha. Tenho que encarar a morte de frente e lutar contra ela! Mas saber que poderei encontrar com JP, armado com um fac\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo o cad\u00e1ver possu\u00eddo de Edson, caminhando no escuro com a perna quebrada, faz meu estomago revirar.<\/p>\n<p>Dane-se&#8230; N\u00e3o vou esperar aqui e ser morto como um rato. O fato de JP saber que estou aqui, e n\u00e3o ter aparecido ainda, me faz pensar que ele deve estar tramando loucuras sat\u00e2nicas contra mim. De maneira nenhuma vou ficar para esperar&#8230;<\/p>\n<p>Deus&#8230; Mais uma vez pe\u00e7o perd\u00e3o por tudo&#8230; Esteja comigo somente essa vez!\u2028&nbsp;\u2028&nbsp; &nbsp; &nbsp;Adriana&#8230; Onde quer que voc\u00ea esteja nesse momento. Desculpe-me pelo que fiz&#8230; E, se poss\u00edvel, me ajude de alguma maneira.<\/p>\n<p>Sinto muito sua falta!<\/p>\n<p>Ass: Tom\u00e1s<\/p>\n<p><strong>\u00daltimo registro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entrevista exclusiva, com sobrevivente, revela momentos de p\u00e2nico e horror no \u201cIncidente do Gandarela\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo Duarte, que&nbsp;est\u00e1 sendo&nbsp;investigado pela morte de Tom\u00e1s de Oliveira, concede entrevista in\u00e9dita e conta sua vers\u00e3o dos fatos tr\u00e1gicos.<\/p>\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o do dia 27\/02\/2013 11h45 \u2013 Atualizado em 27\/02\/2013 18h23<\/em><\/p>\n<p>Cerca de uma&nbsp;semana ap\u00f3s o acidente conhecido pela m\u00eddia nacional como \u201cIncidente do Gandarela\u201d, as investiga\u00e7\u00f5es acerca da morte do trabalhador Tom\u00e1s de Oliveira, 30 anos, continuam intrigando a justi\u00e7a Mineira.<\/p>\n<p>Quando no dia 17\/02\/2013 Jo\u00e3o Paulo Duarte, 45 anos, foi resgatado \u00e0s beiras do rio Ribeir\u00e3o da Prata, os Bombeiros acreditaram que haviam acabado de solucionar o mist\u00e9rio que perturbava a Vale do Rio Doce e, consequentemente, as fam\u00edlias dos tr\u00eas trabalhadores desaparecidos. Por\u00e9m,&nbsp;ao acessar o local (uma caverna Subterr\u00e2nea) onde Joao Paulo estava preso h\u00e1 mais de seis dias, os oficiais se depararam com uma dura realidade: os outros dois trabalhadores, Tom\u00e1s de Oliveira e Edson Luiz, estavam mortos.<\/p>\n<p>Antes mesmo de ser questionado, Jo\u00e3o Paulo contou todos os detalhes \u00e0 Policia. Desde o motivo pelo qual os tr\u00eas se perderam na Serra, at\u00e9 os momentos que antecederam seu resgate.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/d1gjpjrpveqnfr.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/SerradaGandarela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12145\" src=\"https:\/\/d1gjpjrpveqnfr.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/SerradaGandarela.jpg\" alt=\"SerradaGandarela\" width=\"550\" height=\"386\"><\/a><\/p>\n<p><em>\u2028\u2028\u2028Serra do Gandarela. Regi\u00e3o onde, possivelmente, ser\u00e1 instalado o mais ambicioso projeto de minera\u00e7\u00e3o de todos os tempos: A Mina Apolo, da Vale do Rio doce. Nesse local, cortado pelo rio Ribeir\u00e3o da Prata, ocorreu o acidente que ceifou a vida de Tom\u00e1s de Oliveira e Edson Luiz. (imagens de sat\u00e9lite)<\/em><\/p>\n<p>A vers\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo sobre a morte de Edson, a qual ocorreu em decorr\u00eancia de ferimentos graves na perna direita e m\u00e3o direita, foi confirmada pela per\u00edcia e pelos m\u00e9dicos.&nbsp;Mas nessa semana, a explica\u00e7\u00e3o sobre a morte de Tom\u00e1s foi contestada pelos m\u00e9dicos legistas,&nbsp;pois os resultados dos exames n\u00e3o revelaram&nbsp;fatores que evidenciassem luta corporal. O \u00fanico ferimento estudado foi um golpe de fac\u00e3o no pesco\u00e7o.&nbsp;No entanto,&nbsp;Jo\u00e3o Paulo est\u00e1 alegando \u00e0 Pol\u00edcia que precisou agir em leg\u00edtima defesa, o que&nbsp;est\u00e1 em desacordo com os relat\u00f3rios dos per\u00edtos,&nbsp;os quais concluliram&nbsp;que Tom\u00e1s nada fez para se defender do ataque. Dessa forma, Jo\u00e3o Paulo passou a ser investigado por suspeita de homic\u00eddio.<\/p>\n<p>Desde o dia do resgate, nenhum instrumento de m\u00eddia conseguiu entrar em contato com a fam\u00edlia ou com o Advogado de Jo\u00e3o Paulo, para saber dele o que realmente aconteceu, e quais s\u00e3o seus argumentos sobre a misteriosa situa\u00e7\u00e3o acerca da morte de Tom\u00e1s. Mas nessa manh\u00e3, com exclusividade ao&nbsp;G1 \u2013 Minas Gerais, Jo\u00e3o Paulo, na companhia de seu advogado, concedeu uma entrevista ao jornalista Silvester Rodrigues, onde relatou em detalhes os \u00faltimos momentos em que esteve na caverna subterr\u00e2nea.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/d1gjpjrpveqnfr.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/caverna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12151\" src=\"https:\/\/d1gjpjrpveqnfr.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/caverna.jpg\" alt=\"caverna\" width=\"1144\" height=\"690\"><\/a><br \/>\n<em>\u2028\u2028\u2028Entrada da caverna subterr\u00e2nea, descoberta por Jo\u00e3o Paulo no dia 11\/02\/2013. Uma barragem artificial, feita pela&nbsp;empresa&nbsp;Ferro Minas, baixou o n\u00edvel do rio Ribeir\u00e3o da Prata por alguns minutos. Mas foi o suficiente para trancar os tr\u00eas trabalhadores em seu interior. Por sorte, a&nbsp;Ferro Minas realizou o mesmo procedimento na manh\u00e3 do dia 17\/02\/2013, dando condi\u00e7\u00f5es para que Jo\u00e3o Paulo escapasse.<\/em><\/p>\n<p>O&nbsp;G1&nbsp;n\u00e3o foi autorizado a divulgar as&nbsp;imagens ou o \u00e1udio da entrevista. Mas, logo abaixo, a transcri\u00e7\u00e3o da conversa poder\u00e1 ser lida na integra.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;Quando os legistas terminaram de examinar o cad\u00e1ver de Tom\u00e1s, a conclus\u00e3o foi de que ele morreu em fun\u00e7\u00e3o de um corte na regi\u00e3o do pesco\u00e7o, provocado pela lamina de um fac\u00e3o. Al\u00e9m disso, n\u00e3o encontraram marcas que evidenciassem a ocorr\u00eancia de luta corporal. Dessa forma, quais argumentos voc\u00ea sustenta para afirmar que agiu em legitima defesa, quando na verdade os exames apontam o contr\u00e1rio?&nbsp;\u2028&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Sim, o corpo de Tom\u00e1s n\u00e3o apresentava marcas de luta. Mas isso foi constatado porque&nbsp;eu, realmente, n\u00e3o cheguei a lutar fisicamente contra ele. N\u00e3o houve luta corporal. O golpe que eu desferi no pesco\u00e7o dele, e n\u00e3o discordo disso, foi a minha \u00fanica a\u00e7\u00e3o de defesa, quando ele tentou me atacar no escuro da caverna, na madrugada que antecedeu o meu resgate.<\/p>\n<p><strong>\u2028G1:&nbsp;Por que Tom\u00e1s teria discutido com voc\u00ea, sendo que ele&nbsp;estava na mesma situa\u00e7\u00e3o desesperadora?\u2028&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Tom\u00e1s n\u00e3o era meu amigo. Mas&nbsp;eu sabia os rumores sobre os problemas pessoais, graves, que ele&nbsp;possu\u00eda e, respondendo sua pergunta, ap\u00f3s a morte de Edson, Tom\u00e1s passou a agir de forma estranha. Ficava o tempo inteiro andando de um lado para o outro e quando eu me aproximei dele, no intuito de convid\u00e1-lo para fazer uma ora\u00e7\u00e3o, onde a inten\u00e7\u00e3o era ficarmos calmos e confiantes, ele ficou extremamente furioso comigo. Passou a me xingar e manifestar muita raiva por mim. Logo, fiquei preocupado, pois se quis\u00e9ssemos sobreviver, precisar\u00edamos trabalhar juntos. Mas n\u00e3o tinha jeito, sempre quando me aproximava dele eu era fortemente&nbsp;repreendido, sem motivo aparente.<\/p>\n<p><strong>\u2028G1:&nbsp;A Pol\u00edcia disse que, no Boletim de ocorr\u00eancia, voc\u00ea alegou que&nbsp;Tom\u00e1s estava com s\u00e9rios problemas mentais. Quais fatos voc\u00ea presenciou, al\u00e9m do que acabou de nos contar, que o fez pensar assim?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Na primeira madrugada ap\u00f3s a morte de Edson, &nbsp;Lembro que fui dormir muito tarde, enquanto Tom\u00e1s escrevia, n\u00e3o sei o que. Depois, eu acordei escutando sons de gritos. Levantei-me no escuro, liguei a lanterna e percebi que Tom\u00e1s n\u00e3o estava no lugar dele. Logo, fui procur\u00e1-lo. Caminhei pela galeria, de onde vinham os gritos, e o encontrei totalmente sujo. Al\u00e9m disso, sem motivo ou raz\u00e3o aparente, havia retirado o corpo de Edson debaixo das pedras e estava prestes a dar socos no cadaver.&nbsp;Rapidamente, eu o segurei firme, mas ele se virou e me encarou com um olhar irreconhec\u00edvel, semelhante a um animal, e disse para eu me afastar se n\u00e3o me mataria. Sem falar nada, eu o soltei e ele correu desesperado, trope\u00e7ando nas pedras e nas pr\u00f3prias pernas, e se escondeu em algum lugar.<\/p>\n<p><strong>\u2028G1:&nbsp;Quando voc\u00ea contou sua vers\u00e3o dos fatos, a Pol\u00edcia entrou em contato com a fam\u00edlia de Tom\u00e1s questionando a exist\u00eancia de laudos m\u00e9dicos ou outros documentos que comprovassem que realmente ele estava passando por problemas mentais. A fam\u00edlia dele negou esse tipo de problema, mas confirmou que ele&nbsp;passou a ter depress\u00e3o ap\u00f3s o incidente da esposa em 2011. Agora a pouco, voc\u00ea disse que assuntos pessoais graves poderiam justificar os poss\u00edveis danos mentais de Tom\u00e1s. O que voc\u00ea sabe a respeito disso?\u2028&nbsp;\u2028<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;A fonte \u00e9 confi\u00e1vel, pois foi o pr\u00f3prio Edson que me contou. O fato \u00e9 que Tom\u00e1s tinha um grave problema. Mesmo casado, era sexualmente compulsivo. S\u00f3 pensava em sexo. Dessa forma, traia a mulher constantemente e as brigas passaram a ser frequentes na vida do casal. Um dia a esposa, chamada Adriana, o flagrou em casa transando com outra mulher. Isso foi a gota d\u2019\u00e1gua para o casamento. Tom\u00e1s tentou se justificar, dizendo que precisava de tratamento m\u00e9dico para cuidar da sua compuls\u00e3o, mas Adriana ficou muito chocada com a cena. Ent\u00e3o, em uma noite de agosto, no ano de 2011, Tom\u00e1s voltou para casa e viu uma carta na mesa da cozinha, onde Adriana dizia que&nbsp;se mataria e a culpa&nbsp;seria dele. Al\u00e9m disso, ela ressaltou que todos aqueles anos de trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o&nbsp;poderiam ser&nbsp;justificados por uma simples compuls\u00e3o, e que Tom\u00e1s precisava pagar com a pr\u00f3pria vida. Ap\u00f3s ler a carta, ele imediatamente correu at\u00e9 a garagem. Tarde demais, Adriana se matara dentro do carro ligado, utilizando-se de uma mangueira para conduzir os gases t\u00f3xicos do escapamento at\u00e9 o interior do ve\u00edculo. Nada pode ser feito, pois ela j\u00e1 estava asfixiada.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;Os policiais conhecem essa hist\u00f3ria? Eles conversaram com os familiares de Tom\u00e1s sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Sim. Eu mesmo disse isso a eles. Mas, como falei, a aus\u00eancia de atestados m\u00e9dicos dificulta meu argumento. Sem contar o fato de que os familiares querem que eu seja julgado como culpado! Ent\u00e3o, disseram \u00e0 policia que Tom\u00e1s estava bem e saud\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mente, sendo que na verdade n\u00e3o estava. Eu mesmo&nbsp;provei isso!&nbsp;Se Edson tivesse sobrevivido, certamente me ajudaria nessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;Agora que estamos sabendo de todas essas informa\u00e7\u00f5es, gostar\u00edamos de entender o que de fato aconteceu na madrugada do dia 17 de fevereiro de 2013. Por que foi necess\u00e1rio voc\u00ea agir daquela maneira?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Naquela madrugada eu n\u00e3o conseguia&nbsp;dormir. O sil\u00eancio me perturbava, e eu&nbsp;estava preocupado sabendo que Tom\u00e1s poderia aparecer a qualquer momento e, de alguma forma, me atacar, como ele mesmo disse que faria! Lembro-me que escutei sons de passos. Levantei-me e perguntei: Tom\u00e1s, \u00e9 voc\u00ea? Mas n\u00e3o obtive resposta. Acendi a lanterna e constatei que realmente era ele, e estava bem \u00e0 minha frente, segurando uma pedra do tamanho de um abacate maduro. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele atirou aquela pedra na minha dire\u00e7\u00e3o. Meu \u00fanico gesto foi levantar as m\u00e3os, para proteger o rosto, e me abaixar. A pedra passou perto de minha cabe\u00e7a, mas por sorte atingiu apenas a lanterna, que caiu no ch\u00e3o desligada. Dessa forma, ficamos cara a cara um com o outro.&nbsp;Ambos cegos, em raz\u00e3o da escurid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;Como voc\u00ea conseguiu pegar o fac\u00e3o e acert\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Eu estava ao lado das minhas coisas. Abaixei para me proteger e tateei o ch\u00e3o&nbsp;na inten\u00e7\u00e3o de pegar o fac\u00e3o. Depois me levantei, dizendo a Tom\u00e1s que ele deveria parar, pois eu estava com uma arma e poderia machuc\u00e1-lo. Infelizmente, n\u00e3o me escutou. Percebi que ele, de forma desesperada, apanhava mais pedras e as atirava em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, tentando me acertar. At\u00e9 que correu em minha dire\u00e7\u00e3o. Percebi isso pelo som! Ent\u00e3o, meu instinto de prote\u00e7\u00e3o foi mais forte. Fechei os olhos e dei apenas um golpe na escurid\u00e3o. N\u00e3o queria que isso tivesse acontecido, mas acertei a garganta dele.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;E o que houve em seguida?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;A primeira coisa que fiz foi procurar a lanterna. Minutos depois eu a encontrei, acendi a luz e vi que Tom\u00e1s estava gravemente machucado. Fiquei desesperado, mas n\u00e3o pude fazer nada. Ele faleceu logo em seguida. Meu estado era de choque, pois nunca pensei que um dia eu passaria por aquela situa\u00e7\u00e3o. Ao lado do corpo, chorei e lamentei muito aquela morte. Cerca de tr\u00eas horas depois, percebi que uma t\u00edpica luz aparecia na galeria principal. A \u00e1gua havia baixado um pouco, permitindo a entrada dos raios solares da manh\u00e3. Consegui sair e imediatamente uma patrulha dos bombeiros me resgatou.<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;Voc\u00ea passou por situa\u00e7\u00f5es desesperadoras enquanto esteve preso naquela caverna. Em algum momento pensou que n\u00e3o sobreviveria? Chegou \u00e0&nbsp;acreditar que iria morrer?\u2028&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Em nenhum momento isso passou pela minha cabe\u00e7a. Pois tenho muita f\u00e9 em minhas cren\u00e7as. N\u00e3o vou falar sobre a minha religi\u00e3o, que por sinal sofre bastante discrimina\u00e7\u00e3o. No entanto, a minha f\u00e9 permitiu que eu n\u00e3o&nbsp;me abalasse, mesmo no final quando Tom\u00e1s me atacou. Agrade\u00e7o muito \u00e0 entidade que me protege 24 horas por dia. Sem a ajuda e a guia dela, talvez eu n\u00e3o tivesse sobrevivido.<\/p>\n<p><strong>\u2028G1:&nbsp;Essa entidade opera como uma esp\u00e9cie de anjo da guarda?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Sim! \u00c9 exatamente isso!<\/p>\n<p><strong>G1:&nbsp;E voc\u00ea pode nos contar o nome dela?<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo:&nbsp;Claro, chama-se Bacal.&nbsp;(Fim da Entrevista)<\/p>\n<p>Em nota ao G1, o Investigador Gustavo Serrano disse que a reconstitui\u00e7\u00e3o da morte de Tom\u00e1s ser\u00e1 marcada para os pr\u00f3ximos dias. Nessa ocasi\u00e3o, al\u00e9m do exame detalhado do local da morte, os peritos tentar\u00e3o recuperar os objetos perdidos de Tom\u00e1s, dentre os quais destaca-se o caderno que fora mencionado por&nbsp;Jo\u00e3o Paulo, que possivelmente pode conter anota\u00e7\u00f5es de pr\u00f3prio punho, feitas por Tom\u00e1s enquanto ele estava escondido.\u2028&nbsp;\u2028Do:&nbsp;G1 Minas Gerais,<\/p>\n<p>Por:&nbsp;Silvester Rodrigues<\/p>\n<p>Fim.<\/p>\n<p>Autor: <a href=\"http:\/\/www.recantodasletras.com.br\/autor_textos.php?id=138795\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carlos Gon\u00e7alves<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto de terror psicol\u00f3gico que mistura sodomia, necrofilia e magia negra. Divirta-se. 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